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Além desse mundo: como artistas imaginam planetas que ainda não foram vistos




Quando cientistas anunciaram recentemente que eles haviam descoberto um novo planeta orbitando a estrela mais próxima de nosso Sol, Proxima Centauri, eles também publicaram uma concepção artística do planeta. A imagem de um canion íngreme, iluminado por um pôr do Sol laranja avermelhado, poderia ter sido feita por algum dos robôs exploradores da NASA em Marte. Mas essa cena alienígena foi completamente desenhada. Ela faz parte de uma galeria cada vez maior de imagens que retratam planetas reais que estão além de nosso Sistema Solar que, de fato, ninguém jamais viu.

Astrônomos detectaram esses planetas observando como a gravidade de um planeta interfere em sua estrela, ou como um conjunto de planetas bloqueia a luz da estrela. Nas últimas duas décadas, eles tem utilizado essas técnicas para detecção de milhares de planetas.

A criação desse tipo de imagem mostrando como os planetas podem se parecer se tornou um trabalho interessante. Os artistas dizem que esse trabalho podem fazer as pessoas acreditarem que esses planetas realmente existem - mas, ainda assim, alguns se preocupam se o público possa ter uma ideia errada.

Como quatro artistas veem Gliese 1214b
"É complicado com computação gráfica," diz Ray Villard, diretor de notícias para o Instituto de Ciências do Telescópio Espacial. "Você pode fazer coisas com detalhes impressionantes e as pessoas acham que pode ser real. As pessoas podem pensar que nós realmente vimos essas características - canions, todos os tipos de lagos e rios."

"O objetivo dessas ilustrações é criar entusiasmo, para atrair a atenção do público em geral. Mas há o perigo de muitas pessoas confundirem algumas dessas ilustrações com foto reais," concorda Luis Calçada, um artista da ESO e de departamentos públicos.

"Muitos, muitos astrônomos realmente veem perigo nesse tipo de ilustração," ele diz, "por que pode criar uma falsa imagem na mente das pessoas."

"Cabe a escritores e suas legendas explicar o que a imagem é," diz Calçada.

"Para nós, isso é o maior elogio, dizer que as pessoas confundem nossas ilustrações com uma imagem real," brinca.

Os artistas colaboram com cientistas, que compartilham o que sabem a respeito desses planetas distantes, disse Tim Pyle, um artista gráfico que costuma trabalhar para Hollywood e agora trabalha para o Spitzer Science Center, na Caltech, NASA.

Apenas olhando para uma estrela, ele diz, "nós somos capazes de expressar um pouco de informação a respeito dela, o número de planetas que podem estar orbitando ela, suas distâncias da estrela, seus tamanhos."

Como Robert Hurt e Tim Pyle ilustraram suas visões a respeito de Kepler-186f


Mas ainda há muitos detalhes a serem preenchidos para se criar uma imagem plausível do que um planeta pode parecer - e isso pode ser complicado.


"Se nós encontrarmos um planeta onde seja possível haver água em sua superfície, o que, diga-se de passagem, isso é muito raro. Você vai ter certeza de que, seja qual for a concepção artística, de alguma forma você estará concentrado na água."

Representar a água não é uma tarefa tão simples. Pense no planeta chamado Kepler-186f, por exemplo. é um planeta rochoso que pode ter água líquida - ou não.

"Nós não gostaríamos que o público em geral visse essa concepção artística e pensasse: 'Nossa, eles encontraram uma outra Terra!" Recorda Pyle.

Certa vez ele ilustrou Kepler-452b. Os cientistas não puderam concordar se o planeta poderia ter água. Ela pode ter evaporado em um efeito estufa descontrolado [a exemplo de Vênus]. Então Pyle criou um planeta com muitos vulcões que fizeram com que o planeta iniciasse a perda de sua água.

Kepler-452b


"Você poderia ver lagos e rios que secaram e deixaram para trás resíduos de sal em suas margens," diz Pyle, "e é tipo uma água meio verde e suja."

Imagens como essa prendem muito a atenção - a visão de Pyle de 452b foi publicada no Jornal USA Today, por exemplo. "Minha mãe guardou uma cópia," ele brinca.

No início da caça à planetas, os cientistas avistaram planetas gigantes que são quentes e gasosos. E lá foram os artistas se esforçarem para expressar em uma imagem o que poderiam ser esses planetas.

"Depois de você ter feito 10 'Jupiteres Quentes', eles começam a ficarem parecidos," diz Robert Hurt, um astrônomo que virou artista e que trabalha com Pyle.

Agora que os astrônomos estão encontrando planetas menores e potencialmente rochosos, as coisas estão ficando mais interessantes. Calçada recorda ilustrando um mundo rochoso que está tão perto de sua estrela, provavelmente coberto de lava.


Corot-7b


"Fazer esse trabalho foi muito intenso", ele diz. "Eu gostei muito de imaginar todos os traços da lava na superfície do planeta. Tecnicamente, não foi um desafio, mas foi um dos que eu mais gostei."

Algo que deve ser um desafio é quando o artista precisa ilustrar um planeta para um grande público que é formado por cientistas, diz Hurt: "Nós nunca colocamos algo indicando a possibilidade de vida, ou algo que você olhe e diga, 'Nossa, isso é um organismo vivo, definitivamente.'"

Eventualmente, objetos como árvores ou algas já seria ir longe demais, em sua visão.


Chesley Bonestell, artista astronômico, aponta pirâmides em um planeta que ele desenhou em 1951 para um filme de Hollywood.
"Se você colocar uma árvore naquela imagem, isso será a primeira coisa que as pessoas irão ver. E isso vai espantá-las," disse Hurt. "Você precisa ser noção. Eu penso o que as pessoas vão abstrair da imagem - O que é para ser uma parte da informação, é o que eles irão mais se lembrar. Você quer ter certeza que parte da informação não será algo a ser lembrado como duvidoso ou errado."

Esses artistas vêm de uma geração especial: Eles estavam criando visões de planetas em nosso sistema solar muito antes de qualquer sonda sequer fotografá-los.

E, de fato, nos anos 1960, o afamado artista espacial Chesley Bonestell publicou um livro chamado Além do Sistema Solar que incluíam ilustrações que retratavam planetas ao redor de outras estrelas. Até aquele momento não haviam sido descobertos planetas ao redor de outras estrelas, mas isso não o impedia de imaginá-los. Villard disse que encontrou esse livro muito inspirador quando ainda era uma criança.

"Meu planeta favorito tinha uma pirâmide," disse Villard. "Então eles estavam insinuando que alguém pode ter vivido lá - e que eles fizeram pirâmides também."

Um outro planeta tinha duas sombras, ele disse, "por que haviam duas estrelas no céu. Então elas fariam sombras diferentes, uma de cada cor."

Villard diz preferir esse tipo de arte impressionista - que foi retirada de um livro que ele escreveu, chamado de Infinite Worlds: An Illustrated Voyage to Planets Beyond Our Sun.


A Artista Lynette Cook pintou essa representação de Epsilon Eridani b e suas luas, para o livro Infinite Worlds.
"Tem como ser um trabalho memorável mesmo que não seja apresentadas todas as pequenas rochas, pedras e penhascos que há no planeta," ele diz.

E, dados os desafios técnicos, Villard pensa que será apenas no próximo século que iremos conseguir ter uma imagem real de um planeta além de nosso Sistema Solar, e que essa imagem será algo próximo do que um artista espacial imagina hoje.



Fonte: NPR



[Tradução e adaptação: Diogo Furlan - no Facebook/Instagram como: @difurlan1]

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